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Tempos de Mudança


A chegada do comboio em 1856, no âmbito da abertura do primeiro troço de linha férrea do país - de Lisboa ao Carregado - marcou o início de um novo período no desenvolvimento da região.

Já próximo do final do século a industrialização assentará arraiais precisamente nesta faixa bordejante do caminho de ferro. À Póvoa de Santa Iria chegou em 1859 a indústria de produtos químicos, conhecida por "Fábrica da Póvoa".

Em 1892 iniciaram o seu funcionamento em Alhandra duas fábricas têxteis, sendo uma de tecidos de linho e juta e outra de fazendas de lã, localizada esta última na Quinta da Figueira, onde, apesar de desactivada, ainda hoje se mantém. Também em Alhandra, abriu, em 1894, a fábrica de cimentos fundada por António Teófilo de Araújo Rato que, após sucessivas transformações, daria origem à actual fábrica da Cimpor.

Em Vila Franca de Xira, no virar de século instalou-se a moagem industrial e ainda uma fábrica de cintas. A Alverca chegou em 1918 o Parque de Material Aeronáutico que originaria a atual OGMA - Indústria Aeronáutica de Portugal, e que, pela sua dimensão de implantação, haveria de condicionar o ordenamento futuro da vila.

Contemporâneo da industrialização, foi um forte movimento cultural e associativo que se desenrolou no concelho na segunda metade do século XIX e que se viria a repercutir até à actualidade. Em 1862 foi fundada a Sociedade Euterpe Alhandrense, a mais antiga associação cultural hoje existente. Também em Alhandra, em 1865, foi inaugurado o Teatro Tália onde se estreou Salvador Marques, actor e dramaturgo natural desta vila. Em 1870 era criada a Filarmónica 1.º de Dezembro em Vila Franca de Xira e quatro anos depois surgia em Alverca a Sociedade Filarmónica de Recreio Alverquense. Do Grupo Ocarinista de Vila Franca (1886), evoluído em 1891 para Fanfarra 1.º de Maio, haveria de surgir mais tarde a actual associação Ateneu Artístico Vilafranquense. Em 1905 era inaugurado em Alhandra o Teatro Salvador Marques.

Os efeitos da implantação da industrialização no já então consolidado concelho de Vila Franca de Xira tiveram gradual e progressiva repercussão demográfica. Em 1864, data dos primeiros censos fidedignos no país, a população total do concelho de Vila Franca era de 13 622 pessoas, valor que em 1900 passou para 15 766 habitantes. Mais significativas são as diferenças ocorridas entre 1900 e 1920, ano em que o concelho registava já 21 349 habitantes - nos primeiros vinte anos do século XX a população aumentou 35%. Os números dos últimos quarenta anos falam por si: se em 1960 o concelho tinha 40 594 habitantes, os censos de 1991 contaram 104 610 residentes. Para este aumento contribuiu significativamente a década de setenta, em que a população cresceu mais de 60%.

Testemunhas directas das mudanças ocorridas no concelho de Vila Franca de Xira a partir de meados deste século, e delas dando conta em obras de ficção que marcaram a literatura portuguesa, foram os escritores Alves Redol e Soeiro Pereira Gomes. Em Vila Franca de Xira ocorreu mesmo nos anos 30 e 40 uma movimentação cultural forte, aglutinada por Redol, e conhecida como o grupo neo-realista de Vila Franca. Tanto Redol como Soeiro envolveram-se directamente na vida cultural local estimulando e liderando iniciativas teatrais e artísticas.

Populações com diversíssimas origens povoam hoje o actual concelho de Vila Franca de Xira. Temos de recuar ao século XIX, e mesmo ao século XVIII, para encontrar os primeiros migrantes. Eram pescadores da costa atlântica norte, oriundos de Ovar, Murtosa e Estarreja que vieram em busca de melhor faina e que nestas terras do sul ficaram conhecidos por varinos. Da pesca, tendo passado para a actividade comercial, misturaram-se os varinos com a população vilafranquense, da qual fazem hoje parte integrante. Também desde o século XIX, mas sobretudo a partir de meados do século XX, chegaram ao Tejo outros pescadores atlânticos, desta vez provenientes da praia de Vieira de Leiria. Conhecidos por Avieiros, as suas comunidades destacam-se ainda hoje na paisagem ribeirinha da Póvoa de Santa Iria, Alhandra e Vila Franca. Os migrantes da era industrial vieram um pouco de todo o país, com especial incidência para as proveniências do alto Ribatejo, Alentejo, Beiras e, com menos expressividade, Trás-os-Montes. A estes novos operários viriam juntar-se nos anos mais recentes trabalhadores de serviços e jovens oriundos da capital, arrastados na expansão desta até à periferia. Numa segunda vaga é de acrescentar os emigrantes oriundos das ex-colónias portuguesas que abandonam os respectivos países, no rescaldo da guerra nos anos 80 e 90 do Séc. XX, em busca de melhores condições de Vida. Na viragem de século, destacam-se os emigrantes de outros países, com grande evidência para os países de leste, que após o desmembramento da União Soviética e o término da "guerra fria", na procura mais qualidade de vida, se deslocam para o sul da Europa.O horizonte temporal da permanência migrante no concelho de Vila Franca de Xira faz com que na década de 90 a população do concelho inclua já uma segunda e mesmo uma terceira geração de filhos de migrantes. Este facto permite já o estabelecimento de códigos de identidade sedimentados pela memória patrimonial, a que os mais jovens dão a necessária sobrevivência.